Não tenho filhos e tremo só de pensar.
Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades.·
Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não
levam vidas descansadas.
Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa
ansiedade de contornos particularmente patológicos.·
Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da
posição social e da fortuna familiar.
Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo,
com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro,
lições de piano aos cinco, escola aos seis.
E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como
se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades
modernas: a vida não é para ser vivida mas construída com sucessos pessoais
e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o
infinito.
É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os
amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial
esteja a mamar forte no Prozac.
É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos,
mais queremos.
Quanto mais queremos, mais desesperamos.
A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o
mais leve traço de humanidade.
Não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam
que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade
Enviado por: Ana Paula Correia
One Response
Luis Ferreira
07|Oct|2008 1RESPOSTA A UM IDIOTA
O autor deste texto é Luis Ferreira, Pai.
Qualquer babuseira que tenhas escrito, não se compara à grandeza de espirito de ser pai, e ser pai é ter angustias, ansiedades, alegrias, tristezas, rir, chorar, etc., ou seja todos aqueles ingredientes que a soma deles faz o amor.
E ser pai não é uma benesse é uma dádiva que a natureza nos propociona e é o continuar desta espécie tão bela, que é a espécie humana, a mais bela de todas que conheço.
Há cem ou duzentos anos, os pais não se tinham que preocupar com a educação dos filhos, pois eles morriam a uma taxa de 35% até aos 4 anos, claro que quem não nascia em berço de ouro, ou tivesse posição social e fortuna, a taxa subia para os 50%.
Há cem ou duzentos anos as crianças não nasciam em pistas de atletismo, mas sim em pistas do tipo fuzileiros, o problema não era saltar as tuas barreiras, mas sim salvar a própria vida.
A vida sempre foi e sempre será uma prova de obstáculos, são estes que nos fazem sentir vivos, mas uns ficam-se pela 1.ª barreira, outros pelo meio e outros chegam mais longe e também existem aqueles, como tu que ficam na bancada a ver e chegam ao fim da vida sem histórias para contar a não ser as dos outros.
O ser humano, como animal inteligente que é, está sempre insatisfeito, pois sabe que pode ir sempre mais além, a meritocracia serve para que os mais desafortunados possam aspirar ter aquilo que nunca tiveram e só à custa do seu mérito, não à custa de posição social e fortuna de familia, que parece ser o teu caso e de muitos que eu conheço. Já que é jornalista faça uma investigação para saber onde param os filhos dos nossos politicos, que empregos eles têm e como os conseguiram, de certeza que não foi na base da meritocracia.
Tenho uma filha com oito anos e espero que ela ultrapasse o maior número de obstáculos possivél, só assim ela poderá enriquecer o seu ser e em ultima análise sobreviver neste mundo.
Espero sinceramente que ela não viva, mas sim sobreviva, porque o estar vivo é ser um vegetal, o sobreviver é viver lidando com todas as incógnitas da vida.
Só seremos felizes se tentarmos ser excelentes, se não, seremos pessoas mediocres e mesquinhas, que é o que actualmente aconteçe na maioria dos casos e na maioria da sociedades.
Para acabar, lamento que um jornalista fale de humanidade recorrendo a exemplos do Sec. XVIIII e XX, aconselho vivamente que estude história, talvez assim chegue à conclusão que se vive muito melhor agora que noutras eras.
Viva as pistas de atletismo com barreiras…..
E um beijo para a minha Catarina.
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